O fenômeno BTS: como o “Army” movimenta bilhões e desafia recordes globais
A pré-venda de ingressos para a nova turnê mundial do BTS nos Estados Unidos gerou uma demanda avassaladora, com filas virtuais ultrapassando centenas de milhares de fãs. A intensidade e lealdade do “Army”, como é conhecida a base de fãs do grupo, transformaram o retorno do BTS em um evento econômico monumental.
Em poucas horas, os ingressos para as primeiras cidades americanas se esgotaram, deixando muitos fãs frustrados. Essa corrida por ingressos reflete um padrão observado em grandes turnês desde a pandemia, mas a escala do retorno do BTS e a dedicação de seus fãs elevam essa demanda a um novo patamar.
A nova turnê mundial do grupo, para o álbum “Arirang”, com 82 shows, tem potencial para gerar até US$ 2 bilhões em receita, incluindo vendas de mercadorias e transmissões ao vivo. Esse valor compete diretamente com a “The Eras Tour” de Taylor Swift, que já arrecadou US$ 2,07 bilhões, consolidando o BTS como uma força econômica comparável às maiores estrelas da música mundial, conforme divulgado pela Bloomberg News.
A Construção de um “Superfandom”: Mais que Música, uma Conexão Genuína
A capacidade do BTS de gerar tamanha expectativa reside em uma relação artista-fã que transcende a música. Ao longo de mais de uma década, o grupo cultivou uma presença constante em múltiplas plataformas, oferecendo ao “Army” um nível de acesso sem precedentes. Mesmo durante o hiato para projetos solo e o serviço militar obrigatório dos membros, o grupo manteve o interesse aceso.
O BTS criou um fluxo contínuo de conteúdo, incluindo programas de variedades, transmissões ao vivo, bastidores de videoclipes e sessões de estúdio, além de publicações frequentes no YouTube e na plataforma Weverse. Esse ecossistema mantém os fãs conectados com as vidas e personalidades dos membros, como aponta Susan Jarecke, 54 anos, fã do grupo.
Pesquisadores de fandoms de K-pop observam que essa interação constante gera um engajamento excepcionalmente alto, superando o de públicos mais passivos. Esse envolvimento se manifesta em campanhas de streaming, compras coordenadas e mobilização em redes sociais, transformando ações individuais em um movimento coletivo de apoio ao grupo.
Valores Compartilhados: A Base da Lealdade do “Army”
O engajamento com o BTS é frequentemente descrito como parassocial, mas a escala e consistência da produção do grupo complicam essa definição. O alinhamento entre as mensagens do grupo e suas ações confere aos fãs a sensação de uma conexão genuína. Temas como identidade, desigualdade e saúde mental ressoam profundamente com o público.
Essa lealdade baseada em valores compartilhados ficou evidente em 2020, quando o BTS e sua agência doaram US$ 1 milhão para o movimento Black Lives Matter. Em poucas horas, fãs de todo o mundo igualaram a doação, utilizando as mesmas redes digitais que usam para organizar campanhas de streaming. Essa capacidade de mobilização rápida também foi vista em outras ocasiões, como na interrupção de mensagens racistas e na organização de protestos contra eventos políticos.
Em 2021, o grupo se pronunciou na Assembleia Geral da ONU sobre juventude, resiliência e cooperação global, gerando milhões de tweets e arrecadando cerca de US$ 3,6 milhões para iniciativas da Unicef. Esse alinhamento entre discurso e ação fortalece o desejo coletivo de apoiar as mensagens morais do grupo, como relata Zaniah Harris, fã que encontrou conforto na música do BTS durante períodos difíceis.
Economia do “Fandom”: Gastos e Estratégias de Monetização
A preparação para o lançamento de um álbum do BTS muitas vezes se assemelha a um evento cultural, com anúncios enigmáticos, distribuição de rosas e projeções em locais públicos. Experiências como cruzeiros gratuitos e pop-ups globais intensificam o engajamento e o gasto dos fãs.
A demanda pela música do BTS é igualmente intensa. O álbum “Arirang” ultrapassou 4 milhões de pré-encomendas na primeira semana e se tornou o álbum mais transmitido do Spotify em 2026 em um único dia, com cerca de 110 milhões de streams. Conforme a Bloomberg News, buscas por Seul no exterior aumentaram 160% nas 48 horas seguintes ao anúncio da turnê.
Fãs como Nayeli Martinez, 18 anos, investem tempo e dinheiro, comprando assinaturas e pesquisando estratégias para garantir ingressos e mercadorias. Alguns fãs, como Stephanie Solomon, 54 anos, planejam gastar milhares de dólares para assistir a múltiplos shows, impulsionados pelo desejo de vivenciar a experiência ao máximo, comparando com a oportunidade perdida de ver artistas como Prince.
Apesar do sucesso, há desafios. A Hybe, agência do BTS, enfrentou queda em suas ações após um show de retorno em Seul atrair público menor que o esperado, levantando questões sobre a dependência da empresa ao grupo. No entanto, o “superfandom” do BTS continua a impulsionar uma economia vibrante, com fãs dispostos a investir significativamente para apoiar seus ídolos, mesmo diante de incertezas sobre a sustentabilidade desses gastos a longo prazo.

