Economia americana menos dependente do petróleo: entenda a resiliência em tempos de crise global
A recente escalada da guerra no Irã paralisou o comércio no Golfo Pérsico e elevou os preços do petróleo em mais de 50% globalmente, resultando em um aumento imediato nos custos da gasolina. Esta disrupção, a maior já registrada, promete acelerar a inflação mundialmente ao longo deste ano.
Contudo, nos Estados Unidos, o impacto se mostra consideravelmente mais moderado do que seria há algumas décadas. Essa resiliência se deve a uma combinação de fatores que tornaram a economia americana menos “intensiva em energia”, conforme explicam especialistas.
A transição para uma economia de serviços e o avanço na eficiência energética de máquinas e veículos são os principais pilares dessa mudança. Compreender essas transformações é crucial para analisar a atual conjuntura econômica. Conforme informação divulgada pelo The New York Times Company, esses fatores contribuem significativamente para a menor vulnerabilidade do país.
A mudança para a economia de serviços e a eficiência energética
Uma das principais razões para a menor dependência energética dos EUA é a mudança estrutural da sua economia. Atualmente, o país baseia-se fortemente em setores de serviços, como saúde, varejo e entretenimento. Estes setores demandam significativamente menos energia em comparação com as indústrias manufatureiras tradicionais.
Enquanto setores produtores de bens empregam cerca de 21 milhões de pessoas, a área de serviços abriga 114 milhões de trabalhadores. Essa predominância de serviços na economia americana reduz a necessidade geral de consumo de energia para a produção.
Paralelamente, houve um avanço notável na eficiência energética. Máquinas e equipamentos modernos consomem menos energia para realizar as mesmas tarefas. Essa tendência, que se intensificou após os choques do petróleo nos anos 1970, é visível até mesmo nos veículos de passeio.
Segundo o Departamento de Transportes dos EUA, o veículo leve novo médio alcança hoje 11,9 km por litro de gasolina, um salto considerável em relação aos 5,53 km por litro registrados em 1975. O consumo de gasolina, que vinha crescendo, estabilizou-se a partir de 2007 com a ascensão dos veículos elétricos.
Como resultado direto dessa eficiência, a parcela dos gastos do consumidor com gasolina, em relação à renda disponível para gastos não essenciais, diminuiu consideravelmente. Economistas do Wells Fargo estimam que um aumento sustentado de 50% nos preços do petróleo, semelhante ao cenário atual, teria um impacto aproximadamente duas vezes maior na economia dos EUA nos anos 1980 do que o previsto para hoje, onde se espera uma redução de cerca de 1 ponto percentual no crescimento anual dos gastos do consumidor.
Os EUA como grande produtor de petróleo e os desafios da oferta
Outro fator crucial para a menor dependência é que os Estados Unidos se tornaram o maior produtor mundial de petróleo e gás. Em vez de dependerem exclusivamente do fornecimento do Oriente Médio, o país agora exporta produtos petrolíferos extraídos através do fraturamento hidráulico (shale gas), provenientes de regiões como Dakota do Norte e o oeste do Texas.
Esse novo suprimento interno ajudou a reduzir os preços globais na década de 2010, especialmente após o Congresso suspender a proibição de exportações de gás natural em 2015. Em teoria, isso significa que os lucros da produção de petróleo permanecem nos Estados Unidos, podendo ser redirecionados para outros investimentos.
Pesquisas das filiais do Federal Reserve de Dallas e Kansas City indicam que o boom do fraturamento hidráulico adicionou cerca de 1% ao produto interno bruto (PIB) do país. No entanto, a disposição das empresas americanas em atuar como “produtor de ajuste” para estabilizar o mercado é incerta.
A intensa concorrência de preços durante o boom do fraturamento hidráulico foi devastadora para muitos investidores, levando diversas empresas à falência por não conseguirem honrar empréstimos para infraestrutura de extração. Elas aprenderam a lição de não investir excessivamente em aumento de produção apenas por conta de altas nos preços, especialmente sem a certeza de sua manutenção.
Lucros e retornos aos acionistas: a nova prioridade das petroleiras
Christiane Baumeister, professora de economia da Universidade de Notre Dame e especialista em mercados de petróleo, observa que “não há muita coisa acontecendo do lado da produção para mitigar os efeitos para a economia dos Estados Unidos”. Ela explica que as empresas priorizam entregar retornos aos acionistas.
“Acho que elas preferem aproveitar a situação atual para aumentar os lucros em vez de reinvestir isso na expansão da produção”, afirma Baumeister. Este foco em lucros imediatos e retornos aos acionistas molda a estratégia da indústria petrolífera americana.
Um fator adicional que desestimula o aumento da produção são as tarifas sobre aço e alumínio, que elevaram o custo de insumos essenciais como tubos e válvulas. O número de plataformas de petróleo ativas nos Estados Unidos já apresentou uma queda de 7% em relação ao ano anterior.
Mesmo com a indústria petrolífera americana operando em alta capacidade, os benefícios para os trabalhadores do país são limitados, pois as empresas aprenderam a otimizar suas operações com menos pessoal. O setor emprega cerca de 363 mil pessoas, representando aproximadamente 0,2% do emprego total nos EUA.
Apesar do expressivo boom na produção de petróleo nos últimos 15 anos, o setor não se tornou uma parte mais significativa das carteiras de investimento dos americanos. Embora empresas como Exxon Mobil e Chevron sejam historicamente valiosas, o setor de petróleo e gás representa hoje apenas 3,2% do índice S&P 500, abaixo dos 5,5% de uma década atrás.
As ações do setor, que apresentavam desempenho inferior ao do índice geral, viram seus resultados melhorarem após a alta nos preços do petróleo, impulsionada pelos recentes eventos no Irã. Clark Williams-Derry, analista financeiro do Institute for Energy Economics and Financial Analysis, comenta que a estratégia financeira da indústria de petróleo e gás tem sido “rezar por guerra”, pois são essas condições que garantem seus lucros. “Eles precisam de um grande pico de preços a cada poucos anos literalmente para fechar as contas”, conclui.

