Socos e Gritos no Noma: Chef René Redzepi é Acusado de Abuso Físico e Psicológico em Cozinha de Luxo

O lado sombrio da alta gastronomia: René Redzepi e as acusações de abuso no Noma

O renomado chef René Redzepi, fundador do Noma, restaurante dinamarquês frequentemente eleito o melhor do mundo, está no centro de um escândalo. Relatos de ex-funcionários pintam um quadro sombrio de abuso físico e psicológico dentro das cozinhas de prestígio do Noma, colocando em xeque a imagem de inovador e vanguardista do chef.

As acusações vão desde agressões físicas, como socos e empurrões, até humilhações públicas e ameaças veladas. O silêncio imposto à equipe após incidentes e o medo de retaliação são pontos recorrentes nos testemunhos que vieram à tona.

O debate público foi reascendido com o recente pop-up do Noma em Los Angeles, onde jantares custam US$ 1.500 por pessoa. Ex-colaboradores sentem que o império de Redzepi foi construído sobre o trabalho e o sofrimento deles, e que ele nunca foi verdadeiramente responsabilizado por suas ações passadas. A informação é do The New York Times.

Um Episódio Chocante em 2014: Socos e Humilhação Pública

Um incidente marcante ocorreu em fevereiro de 2014, no Noma. René Redzepi teria levado um subchefe para o exterior, sob o frio, após o funcionário ter colocado música techno na cozinha, gênero que o chef não apreciava. Cerca de 40 cozinheiros foram obrigados a formar um círculo para assistir à humilhação.

Segundo relatos de dois chefs presentes, Redzepi desferiu socos nas costelas do subchefe e o forçou a dizer em voz alta que gostava de fazer sexo oral em DJs, para que todos ouvissem. O subchefe cedeu à pressão, e o grupo retornou ao trabalho. Esse episódio, que nunca foi mencionado novamente, é apenas um exemplo dos castigos violentos descritos por dezenas de ex-funcionários.

Alessia, uma ex-chef do Noma que pediu para não ter seu sobrenome divulgado, descreveu a experiência como ir para a guerra, onde era preciso se forçar a ser forte e não demonstrar medo. Ela teme retaliação caso seu nome seja revelado.

O Legado de Inovação e a Sombra do Abuso

Desde 2004, René Redzepi revolucionou a alta gastronomia com seu foco em alimentação sustentável e pratos inovadores, rendendo ao Noma três estrelas Michelin e cinco vezes o título de Melhor Restaurante do Mundo. Sua influência o tornou uma figura proeminente, condecorado pela rainha da Dinamarca e elogiado por personalidades como Anthony Bourdain.

No entanto, o sucesso e o reconhecimento parecem ter coexistido com um ambiente de trabalho tóxico. Jason Ignacio White, ex-chefe do laboratório de fermentação do Noma, iniciou uma série de publicações no Instagram detalhando abusos físicos e psicológicos que testemunhou e que foram relatados por muitos outros ex-integrantes. Essas postagens alcançaram mais de 14 milhões de visualizações.

O New York Times entrevistou independentemente 35 ex-funcionários, cujos relatos confirmam um padrão de punições físicas infligidas por Redzepi entre 2009 e 2017. Socos no rosto, cutucadas com utensílios e arremessos contra paredes são descritos, juntamente com traumas duradouros causados por intimidação, humilhação corporal e ridicularização pública. Ameaças de blacklisting e deportação de familiares também foram mencionadas.

Pedidos de Desculpas e a Continuidade da Cultura Abusiva

Redzepi já havia feito pedidos públicos de desculpas em ocasiões anteriores, admitindo em um ensaio de 2015 ter sido uma “fera”. Em uma entrevista de 2022, ele expressou arrependimento, embora tenha minimizado as agressões físicas. Em nota enviada ao Times, ele reconheceu que suas ações foram prejudiciais e expressou profundo pesar, afirmando ter trabalhado para mudar e buscando terapia para lidar com a raiva.

Apesar das declarações, muitos ex-funcionários sustentam que o abuso nunca foi verdadeiramente abordado. Mesmo após 2017, quando Redzepi supostamente passou a se controlar mais, chefs seniores teriam mantido a cultura abusiva com sua aprovação tácita. Mehmet Cekirge, que trabalhou como estagiário em 2018, relatou ter sido alvo de piadas e ridicularizado por seu sotaque e origem, sentindo-se envergonhado e fracassado ao final de seu estágio.

O modelo de estágio do Noma, que oferecia trabalho gratuito por três meses em Copenhague, era altamente competitivo, com milhares de candidatos para poucas vagas. Muitos estagiários desistiam ou não compareciam após poucos dias, sobrecarregados pela exaustão e pelo estresse. A figura de Bente Svendsen, sogra de Redzepi e responsável pelo apoio aos estagiários, é apontada como ciente da violência, mas incapaz de detê-la.

Reformulações e o Futuro do Noma

Em resposta às críticas sobre a exploração de trabalho gratuito, o Noma anunciou que estagiários futuros seriam pagos. Pouco depois, Redzepi declarou o sistema da alta gastronomia insustentável e anunciou o fechamento do restaurante. O Noma agora opera como um empreendimento móvel, focado em inovações e produtos.

O pop-up de Los Angeles, no entanto, reavivou o debate sobre o passado do chef. Dois patrocinadores importantes, American Express e Blackbird, retiraram seu apoio, reembolsando clientes e doando a receita arrecadada para organizações de proteção a trabalhadores de restaurantes. Chefs locais também criticaram a postura do Noma de se apresentar na cidade enquanto outros estabelecimentos enfrentam dificuldades.

Marco Cerruti, um chef que trabalhou no Noma, questiona o que René Redzepi está modelando para o setor: “Alimentar gente rica e explorar jovens chefs aspiracionais.” A imagem polida do chef e seu legado estão sob escrutínio, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade de um modelo de sucesso construído sobre bases tão questionáveis.

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